Você é uma criatura complexa, Dors, e não tenho respostas simples para lhe oferecer. Na minha vida, conheci vários indivíduos em cuja presença sentia-me melhor comigo mesmo. Tentei comparar o prazer que sentira na presença dessas pessoas com a tristeza que senti quando elas finalmente se foram, para saber se o saldo tinha sido positivo ou negativo. Cheguei à conclusão de que o prazer de sua companhia superava de longe a tristeza de sua perda. Minha conclusão, portanto, é de que o que está experimentado agora fará bem a você.
Crônicas da Fundação, Isaac Asimov.
Agora só falta “A Fundação e a Terra”, vou completar a leitura da série antes de comentar. Por enquanto, fiquem com outra citação =D
A linguagem foi, originalmente, o expediente por meio do qual o Homem aprendeu, imperfeitamente, a transmitir os pensamentos e emoções do seu espírito. Erigindo sons arbitrários e combinações de sons como representação de gradação de cores mentais, desenvolveu um método de comunicação, porém um método que, na sua inabilidade e pesada inadequação, fez degenerar toda a delicadeza do espírito numa transmissão grosseira e gutural de sinais.
Os resultados podem ser seguidos profundamente e todo o sofrimento que a humanidade conheceu pode ser avaliado apenas pelo fato de nenhum homem na história da Galáxia até Hari Seldon, e muito poucos homens depois dele, ter conseguido compreender realmente outro homem. Cada ser humano vivia atrás de uma parede impenetrável de névoa sufocante, dentro da qual ninguém mais existia senão ele. Havia, ocasionalmente, os sinais sumidos das profundidades da caverna em que o outro homem estava metido, de modo que cada um podia caminhar às apalpadelas na direção do outro. Contudo, por não se conhecerem uns aos outros, não poderem compreender-se uns aos outros, não ousarem confiar uns nos outros, e sentirem desde a infância os terrores e insegurança desse isolamento definitivo, havia o medo da perseguição do homem pelo homem, a rapacidade selvagem do homem para com o homem.
Isaac Asimov, Segunda Fundação.
older than sin, and his beard could grow no whiter. He wanted to die.The dwarfish natives of the Arctic caverns did not speak his language, but conversed in their own , twittering tongue, conducted incomprehensible rituals, when they were not actually working in the factories.
Once every year they forced him, sobbing and protesting, into Endless Night. During the journey he would stand near every child in the world, leave one of the dwarves’ invisible gifts by its bedside. The children slept, frozen into time.
He envied Prometheus and Loki, Sisyphus and Judas. His punishment was harsher.
Ho.
Ho.
Ho.
Neil Gaiman, Smoke and Mirrors. E um Feliz Natal! =D
Havia, é claro, alguns vadios, mas o número de pessoas com a força de vontade necessária para viver em completa ociosidade é muito menor do que geralmente se supõe. Manter esses parasitas custava muito menos do que sustentar os exércitos e coletores de bilhetes, empregados de lojas, funcionários de bancos, corretores, etc., cuja principal função, do ponto de vista global, era transladar itens de um livro para outro.
Arthur C. Clarke, “O fim da infância”, 1953.
Aqui em São Carlos tem um sebo muito legal chamado Outros Contos. Eu costumo ir pelo menos uma vez por mês lá, e ontem foi uma dessas idas. Mas o sebo tinha mudado de local!
Após muitas voltas, eu e o Frank achamos o novo lugar. Parece que a casa onde ele ficava antigamente corria risco de desabamento, e fazia uma semana que ele tinha reaberto. Depois de circular um pouco lá por dentro, deu pra notar que ainda estava um tanto quanto desorganizado (apesar de sebo desorganizado ser pleonasmo =D), mas ainda assim consegui achar um Terry Pratchett novinho por R$ 10. Quando estávamos quase indo embora, o Frank me aparece com um livro na mão. “Olha, é do Knuth”. Meu queixo quase caiu no chão.
Não era nenhum volume do The Art of Programming, pois já seria pedir demais. Era uma edição em português do Concrete Mathematics, um livro que eu já tinha achado na biblioteca da USP e estava querendo comprar a tempos. O problema é que o original americano custa US$ 55.29 na Amazon, e meu bolso não aguenta uma compra dessas. Eu dei uma olhada e devolvi pro Frank, pensando que ele fosse levar, mas ele virou-se e foi recolocar ele no lugar.
- Peraí, tu não vai levar? – Disse eu.
- Não.
- ENTÃO DÁ AQUI QUE EU LEVO!
(Não foi tão gritado assim, mas quase =D). Fazia quase dois anos que ele estava lá, mas eu nunca tinha visto. Lição: Não pulem a seção de matemática só porque tem vários Lethoud lá.
Agora tenho que começar a fazer os exercícios, por enquanto só li o capítulo inicial. E obrigado mais uma vez, Frank! =D
People worry about kids playing with guns, and teenagers watching violent videos; we are scared that some sort of culture of violence will take them over. Nobody worries about kids listening to thousands – literally thousands – of songs about broken hearts and rejection and pain and misery and loss. The unhappiest people I know, romantically speaking, are the ones who like pop music the most; and I don’t know whether pop music had caused this unhappiness, but I know that they’ve been listening to sad songs longer than they’ve been living the unhappy lives.
High Fidelity, by Nick Hornby.
Conforme meu qüinquagésimo aniversário se aproximava, tornava-me mais e mais enfurecido e assombrado pelas decisões estúpidas tomadas pelos meus compatriotas. E então, de repente, comecei a sentir pena deles, porque compreendi como para eles era inocente e natural se comportar de modo tão abominável e com resultados tão abomináveis: estavam fazendo o melhor possível para viverem pessoas inventadas em livros de histórias. Este era o motivo pelo qual os americanos matavam uns aos outros a tiro com tanta freqüência: era um truque literário conveniente para terminar contos e livros.
Por que tantos americanos eram tratados por seus governos como se suas vidas fossem descartáveis como lenços de papel? Porque era assim que os autores costumavam tratar personagens menores em suas histórias inventadas.
E assim por diante.
Depois que compreendi o que estava tornando a América uma nação tão perigosa e infeliz, de pessoas que não tinham nada a ver com a vida real, decidi me abster de contar histórias. Eu escreveria sobre a vida. Cada pessoa seria exatamente tão importante quanto qualquer outra. Todos os fatos também receberiam o mesmo peso. Nada seria deixado de fora. Deixaria os outros trazerem ordem ao caos. Eu, em vez disso, traria caos à ordem, o que acho que acabei fazendo.
Se todos os escritores fizessem isso, talvez os cidadãos fora dos ofícios literários compreendessem que não há uma ordem no mundo ao nosso redor, que, em vez disso, devemos nos adaptar às exigências do caos.
É difícil se adaptar ao caos, mas é possível. Sou uma prova viva disso: é possível
Kurt Vonnegut, Café-da-manhã dos Campeões (Breakfast of Champions), 1973.
Postando muitos partes de livros do Vonnegut ultimamente, mas essa não tinha como passar.
Quanto às igrejas fechadas por Stalin e aquelas fechadas na China de hoje: tal supressão da religião foi supostamente justificada pela afirmação de Karl Marx de que “a religião é o ópio do povo”. Marx disse isso em 1844, quando o ópio e derivados do ópio eram os únicos analgésicos eficazes que uma pessoa podia tomar. O próprio Marx os havia tomado. E ficara agradecido pelo alívio temporário que lhe deram. Estava simplesmente observando, e certamente não condenando, o fato de que a religião também podia ser confortadora para pessoas em dificuldades econômicas ou sociais. Era um truísmo casual, não um ditame.
Kurt Vonnegut, “Um Homem Sem Pátria”, 2006.
Gênio. Além de ter escrito Matadouro 5 e Hocus Pocus, ainda nos presenteia com esse belo livro que, apesar de conter apenas comentários um tanto randômicos, são melhores que quase tudo que se publica hoje no mundo.
Salve Kurt Vonnegut!